O meu parto estava previsto para acontecer no dia 11 de outubro de 2011. Mas como apenas 5% dos bebês de parto normal nascem na data prevista e sendo esse meu primeiro filho, eu sempre soube que ele nasceria uma ou duas semanas depois da minha due date. Eu não estava nervosa, eu sabia que ele nasceria na hora em que estivesse pronto. Também comecei a perceber mudanças rápidas no meu corpo nas últimas semanas de gestação.
Como contei aqui, eu não quis conhecer detalhes do que acontece na hora do parto porque eu queria que meu corpo me guiasse e me dissesse o que fazer. E assim foi. Segui até o final minha rotina normal: cuidei da casa, concluí projetos, dirigi, passeei, jantei fora. Nessa fase, mais do que nunca, foi muito importante manter os dates com o marido. Estávamos só na espera, sem ansiedade, felizes da vida com nosso pequeno que estava por vir. Namoramos e passeamos muito naqueles dias.
Na terça-feira, dia 18 de outubro, eu tive terapia e meu terapeuta disse que não queria me ver na sexta-feira porque era óbvio que meu bebê estava para nascer. Ao sair do consultório dele comecei a sentir leves contrações, nada muito diferente do que eu já vinha sentindo nos últimos dias. Naquela noite, no entanto, durante o banho, notei que as contrações ficaram mais fortes. Resolvemos ligar para a midwife, que nos pediu para começarmos a contar as contrações, mas avisou que ainda tínhamos longas horas de espera pela frente.
Eu não quis contar as contrações, nunca achei mesmo que me incomodaria em contar nada, é o tipo de coisa que nunca achei útil, mas meu marido quis contar e ficou atualizando a midwife dos resultados pelo telefone. Tentei dormir, tomei outro banho, mas me sentia cada vez mais desconfortável e acabei vomitando diversas vezes, o que não me assustou porque eu sabia que poderia acontecer. Durante todo o dia 19 ficamos em constante contato com as midwives, que vieram a nossa casa diversas vezes para checar como eu estava, mas não era a hora ainda, a bolsa não tinha estourado e não havia nada para elas fazerem aqui.
Nesse meio tempo, durante todo aquele longo dia, as contrações foram ficando cada vez menos espaçadas e mais dolorosas. A cada onda eu lidava com a dor de forma diferente: deitava no chão, sentava, caminhava, balançava de um lado para o outro, recebia massagem do marido, depois voltava e fazia tudo de novo, mas numa ordem diferente. Qualquer coisa, desde que funcionasse. Nunca senti medo nem ansiedade, sabia que era assim mesmo, que nós ficaríamos bem e que daríamos conta do recado.
Lá pelas 20h da noite as contrações ficaram realmente curtas e a dor se tornou alucinante. Entre uma contração e outra eu bebia muito líquido com potássio e comia proteína leve, já que minha pressão arterial sempre muito baixa foi a única preocupação na minha gestação e no meu parto, e ela não podia cair ainda mais senão eu ficaria muito fraca e poderia desmaiar. Por incrível que pareça, mesmo depois de um dia inteiro de contrações horríveis e de vomitar tudo que eu bebia, jamais me senti fraca ou tonta. Pelo contrário, eu mantive o tempo todo uma energia incrível!
A midwife voltou, checou minha dilatação (3cm) e aí ficou de vez. A outra midwife e sua assistente chegaram logo depois e em menos de meia hora minha bolsa estourou. Tirei a roupa e imediatamente entrei na banheira. Nunca me ocorreu entrar na banheira antes disso porque (e essa foi uma das razões por que eu escolhi o parto em casa) eu queria decidir como manejar a dor do meu jeito, no meu tempo, sem intervenção, lançando mão daquilo que me deixasse mais confortável na hora.
Não usei aquelas bolas, não contei 1, 2, 3, não chupei gelo, não quis ouvir música, não quis cantar, não usei técnicas de respiração ou hypnobirthing, nada disso. Lá atrás eu já tinha percebido que essas técnicas todas, embora eficazes para outras mulheres, jamais funcionariam comigo. Eu teria de encontrar meu próprio jeito, ritmo e sistema. Por isso foi tão importante para mim o fato de minhas midwives respeitarem meu jeito e não tentarem me impor nada em que eu não acreditasse ou com o que eu não me sentisse confortável.
Quando entrei na banheira veio aquela contração fortíssima e eu pensei na hora: “Caralho, essa merda dói mesmo”! A esta seguiram-se outras, ainda mais fortes. Nos intervalos, curtíssimos, entre uma contração e outra, eu mergulhava em mim mesma, ignorando totalmente tudo e todos ao meu redor. As três midwives ficaram em volta da banheira e meu marido ficava colocando toalhas molhadas na minha testa, conversando comigo e tentando me acalmar.

Mas aí é que tá. Eu não precisava ser acalmada, eu já estava super calma. Só não queria ninguém conversando desnecessariamente comigo e muito menos me tocando. Antes do parto, influenciada por uns vídeos de parto natural que vi na internet, fiquei com receio de minhas midwives apelarem para aquele papo-holístico-besta-de-hippie-em-aula-chata-de-yoga, mas felizmente elas souberam encontrar um jeito de se tornarem invisíveis e se fizeram presentes somente quando foi necessário ou quando foram solicitadas.
Naquele momento não havia muito o que elas pudessem fazer, então duas delas foram para o quarto e apenas uma permaneceu no banheiro comigo, para se certificar de que tudo corria bem, ao mesmo tempo em que checava meu estado geral e a temperatura da água. Foi muito bom poder usar nossa própria banheira em vez de termos de alugar uma. Mas cá entre nós, não achei que a água morna ajudou com a dor. Ajudou sim a aliviar o peso e o desconforto nas costas, mas para a dor das contrações não achei que ajudou em nada não. Ainda assim, só a possibilidade de poder ficar lá sentada, quase deitada, totalmente concentrada em mim e no meu corpo, já fez o parto na água valer a pena.
Lá pelas tantas da madrugada, algo incrível aconteceu: eu entrei numa espécie de transe em que não vi nem senti mais nada nem ninguém ao meu redor. De repente éramos só eu e meu corpo. Meu marido não existia, as midwives não existiam. Eu ouvia eles conversando, mas as vozes vinham de muito longe. Fiquei de olhos abertos quase que o tempo todo, mas não vi nada nem ninguém. Nunca o resto do mundo e as outras pessoas pareceram tão desimportantes e distantes da minha realidade como naquele momento. Ao mesmo tempo, nunca me senti tão poderosa, tão segura de mim, tão forte e capaz.
Foi naquele momento que percebi que essa era a razão de eu ter feito a escolha pelo parto em casa. Eu queria estar totalmente consciente do que acontecia dentro do meu corpo, sem nada para anestesiar essa consciência. Eu queria sentir cada contração, cada dor, cada transformação vivida pela minha mente e pelo meu corpo, sem intervenção, assim, na unha mesmo. Não quis ninguém segurando a minha mão, acariciando meu cabelo nem dizendo o quão maravilhosa eu era. Aquele era um momento totalmente orgânico para mim e como tal eu queria vivê-lo. Eu sabia que eu ia dar conta.
Depois de um tempo, os sons, os cheiros, mesmo a dor, foram se evanescendo e entre uma frase e outra trocada com meu marido e com as midwives eu tive total consciência de que aquela era a experiência mais poderosa da minha vida. Eu me desliguei de absolutamente tudo que acontecia ao meu redor! Tem coisas que mais tarde meu marido me contou que eu falei, que ele falou ou que aconteceram na hora que eu simplesmente não me lembro. A consciência do meu corpo, daquela dor lancinante, da vida que eu estava trazendo ao mundo me deixaram tão inebriada que eu mergulhei em mim mesma e naquele momento magnífico. Nada nem ninguém existiam para além de mim mesma. Eu e meu corpo se tornaram maiores do que tudo.
Não lembro quanto tempo exatamente durou essa fase final do trabalho de parto, mas sei que não foi muito longo. Eu não fazia a menor ideia de quando seria a hora certa de começar a empurrar. Mas é incrível como nosso corpo nos diz o que fazer no momento exato porque quando chegou a hora eu soube imediatamente o que tinha de fazer. “Acordei” do meu transe com a midwife dizendo que a cabeça do Oliver estava saindo. Depois disso empurrei mais algumas vezes e quando achava que ia voltar ao meu isolamento de novo escuto a midwife dizer: “Eliane, seu filho nasceu!”. Eram 5h25 do dia 20 de outubro de 2011, uma quinta-feira.

Abri os olhos e vi meu marido segurando aquela coisa pequenina, rosada e enrugada nas mãos. Alguém o colocou contra meu peito, eu o apertei bem forte e o enchi de beijos pela primeira vez, ainda com aquele sentimento de irrealidade, sem conseguir acreditar no que meu corpo tinha feito, no presente que ele tinha me dado e que eu tinha em meus braços naquele momento. Ali, naquela banheira que raras vezes usamos antes do nascimento do nosso filho, tive consciência pela primeira vez de que éramos uma família e senti que aquele momento grandioso e único nos uniria para sempre.
A partir daí são só memórias borradas. A dor desapareceu sem que eu notasse. As midwives me levaram até a cama, onde eu e meu marido deitamos abraçados com o Oliver ainda ligado ao cordão umbilical. Ele chorou e eu o amamentei. Já eu só ficava rindo de felicidade. Meu marido tirou a camisa e abraçou forte o Oliver contra o peito, o que fez o choro dele parar quase que imediatamente. Naquelas duas horas em que ficamos na cama eu voltei a me desligar de tudo e não prestei atenção em nada que as midwives falavam. A diferença é que agora não era mais só eu e meu corpo, mas também meu marido e o Oliver.

Ele cortou o cordão umbilical e ficou o tempo todo conosco na cama, até que a midwife me levou de volta ao banheiro para me ajudar com o banho. Assim que saí do chuveiro me senti tomada de uma fome voraz e de uma energia incrível. Eu sentia que poderia matar um leão na porrada ou devorar um inteiro de uma só vez. Ficava andando de um lado para outro, amamentava o Oliver, tagarelava e me sentia a mulher mais poderosa e feliz do mundo! Vi o dia nascer assim, cheia de adrenalina, enquanto as midwives me trouxeram algo para comer.
Elas checaram o Oliver sem jamais tirá-lo de perto de mim. Como um galo e uma galinha protegendo seu pintinho, nós ficamos observando todos os procedimentos que elas faziam nele. Mais ou menos às 8h da manhã elas foram embora e nós demos o primeiro banho no nosso bichinho, que adorou a experiência. Depois disso ligamos para nossos pais para dar a notícia e fomos descansar. Mas quem disse que eu consegui dormir? Passei o dia todo naquela energia brutal, querendo fazer tudo e me sentindo ótima. Demorou uma semana para a minha adrenalina baixar e eu finalmente sentir necessidade de descansar.
No dia seguinte, a menina que trabalha aqui veio nos visitar e ficou surpreendida com a limpeza e organização da casa. É isso mesmo. Não existe “sujeira” nenhuma. Elas forram tudo, chão, cama, estofados, lavam a banheira, lavam a roupa de cama, preparam sua primeira refeição, tomam conta do lixo hospitalar, cuidam de absolutamente tudo. Duas horas depois do meu parto ninguém entraria na minha casa e diria que eu havia acabado de ter um bebê no banheiro do meu quarto.
Felizmente tudo correu bem para mim na minha gestação, no meu parto e no pós-parto. Mas eu sei que poderia ter sido diferente. O que importa é que eu teria enfrentado o que quer que fosse da mesma forma que enfrentei um parto natural e sem anestesia: com muita confiança e força de vontade. Não subestimei a mim mesma. É impressionante o que seu corpo pode fazer quando você permite que ele aja. Muitas pessoas depois vieram me perguntar que técnica eu usei para lidar com a dor do parto. Minha técnica foi não usar técnica pré-pronta nenhuma. Além de cuidar super bem da minha saúde, não fiz absolutamente mais nada. Eu quis deixar para o momento, para que meu corpo e minha cabeça me guiassem quando chegasse a hora.
E foi lindo. Tão lindo que mesmo demorando 5 meses para relatar essa experiência para vocês, ela de tão forte continua fresca na minha memória, inclusive os detalhes. Não tem como esquecer momento tão especial e único! Eu ainda sou tomada de emoções avassaladoras quando lembro, falo ou escrevo sobre meu parto. Choro enquanto escrevo este post, mas é de emoção, de felicidade. Quando passou, eu senti falta. Não da dor, mas daquele sentimento de empowerment que me dominou durante toda a minha gestação e meu parto.
Meu marido foi um parceiro incrível durante as minhas muitas horas de trabalho de parto. A paciência, a disposição, a prontidão e a compreensão que ele me ofereceu durante aquele momento igualmente importante para ele só me fez ter ainda mais certeza de que escolhi o homem certo para ser meu parceiro da vida e pai dos meus filhos. Ele foi maravilhoso ao saber recuar quando entrei na banheira e senti que a partir dali eu queria que fôssemos só eu e meu corpo. Tem de ter muita segurança em si próprio para não se sentir excluído. Porque a verdade é que ele não foi.

Hoje, cada vez que olho meu filho lindo, saudável, feliz brincar com o pai e dar gargalhadas sonoras eu percebo que minha vida adquiriu um sentido ainda maior do que já tinha antes. Não é que eu precisei casar e ter filhos para dar sentido a minha vida. É que eu percebi que foi preciso todo o amor desinteressado desse homem que tanto me dá e desse pequeno ser desdentado de 5 meses que dá gritinhos de felicidade quando o pego no colo para eu perceber que o momento mais feliz da minha vida é este agora, é o que estou vivendo hoje, não o que vivi ontem, não o que vou viver amanhã.
Não aguento gente que vive no passado, como se o que tivemos ontem fosse sempre melhor do que o que temos hoje, nem aqueles que projetam uma felicidade futura para quando algo especial finalmente acontecer: o emprego certo, o amante perfeito, a esposa linda, o primeiro milhão na conta bancária. Nunca o presente, com seus altos e baixos, sua realidade bonita e feia, os desafios e as dádivas que todos os dias temos para enfrentar ou agradecer.
Não acho que sou mais especial do que os homens só porque a biologia me permitiu gerar um filho dentro de mim. Acho isso puro sexismo. Mas naquele momento em que eu estava na banheira, “sozinha” comigo mesma e com meu corpo, ninguém no mundo estava mais consciente de si mesma nem tinha mais poder do que eu. E como mãe eu descobri que sou ainda mais forte do que eu já sabia que eu era. Pequenas coisas perderam a importância diante da grandeza e do desafio de criar meu filho. Porque isso, por si só, já é muito trabalhoso.
Para quem diz que fui corajosa, adianto que não precisei de coragem nenhuma porque minha escolha nunca envolveu medo ou frio na barriga. Precisei somente de confiança e da certeza de que aquela era uma experiência que eu queria poder viver por inteiro, com crueza e na totalidade do meu corpo, da minha força, da minha vontade e capacidade.